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"História complexa". Reino Unido vai ponderar pedir desculpa pelo papel do país no tráfico negreiro
O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, afirmou que o seu Governo vai ponderar pedir desculpa, pela primeira vez, pelo papel desempenhado no tráfico transatlântico de escravos, numa tentativa de reforçar as relações com nações de África e das Caraíbas.
Num artigo publicado este sábado no jornal The Guardian, Burnham afirma que a Grã-Bretanha precisa de reconhecer a sua "história complexa" para proteger a Commonwealth, uma associação de 56 nações independentes que surgiu do Império Britânico.
Burnham viajará para Antígua e Barbuda na próxima semana para uma reunião com os líderes da Commonwealth.
"Durante anos, os membros da Commonwealth afetados pelo tráfico de escravos apelaram a uma conversa honesta sobre os legados da escravatura", declara Burnham. "Ao ignorarmos o problema, prejudicamos a capacidade de funcionamento da Commonwealth".
Burnham afirmou que o seu governo está a oferecer-se para iniciar um "diálogo estruturado" com os afetados pela escravatura e que irá ouvir os apelos de um pedido formal de desculpas por parte do Estado britânico.
Mas disse que a Grã-Bretanha continuará a resistir aos pedidos para que pague reparações pelo tráfico de escravos.
"Não creio que o povo britânico de hoje possa ser responsabilizado por erros históricos, por mais hediondos que sejam, que ocorreram numa época diferente, sob leis diferentes e nos quais não tiveram qualquer participação pessoal", disse Burnham.
Em vez disso, o primeiro-ministro afirmou que desejava abordar as questões que a Commonwealth e outras nações enfrentam hoje, incluindo os elevados níveis de endividamento de muitos países em desenvolvimento.
Burnham disse que iria trabalhar com outras nações ricas e investidores para ajudar os países vulneráveis a liquidar as suas dívidas num prazo mais longo e com taxas de juro mais baixas. Para ajudar a impulsionar esta iniciativa, o ex-primeiro-ministro Gordon Brown, defensor do alívio da dívida para os países em desenvolvimento, participará na reunião da Commonwealth, afirmou.
Rei Carlos III reconheceu "injustiças do passado"
O rei Carlos III enfrentou pedidos para que a Grã-Bretanha pedisse desculpa e pagasse reparações durante a primeira fase de uma viagem de nove dias às Caraíbas, que terminará com a reunião dos Chefes de Governo da Commonwealth, de domingo a quarta-feira, próximos em St. John`s, capital de Antígua e Barbuda.
Num discurso em Nassau, na terça-feira, Carlos reconheceu "o grande sofrimento e as injustiças do passado", mas não chegou a pedir desculpa.
Até então, o rei estava impedido de ir mais longe, pois a política do Governo era não pedir desculpa pelo papel do país no comércio de escravos, e o monarca constitucional britânico fala em nome do Governo eleito.
Os comentários de Burnham surgem numa altura em que o Reino Unido procura reforçar as relações com os seus aliados tradicionais na Commonwealth, face aos desafios económicos, ambientais e militares em todo o mundo.
Uma mudança na posição do Governo poderá também servir os eleitores mais jovens e liberais do país, onde os ativistas têm apelado ao Reino Unido para que reexamine o legado da sua história colonial.
Em 2020, manifestantes antirracistas em Bristol derrubaram a estátua de Edward Colston, um comerciante e político inglês, afirmando que a cidade já não deveria glorificar a vida de um traficante de escravos.
Colston foi vice-governador da Royal African Company, que transportou milhares de pessoas escravizadas para as colónias inglesas nas Américas.
c/ Lusa